Um ano de zika: Mobilização e empoderamento

Se por um lado as mulheres figuram como as principais vítimas do vírus Zika no país, por outro elas emergem como líderes e empreendedoras de iniciativas de apoio. Seja na internet ou em associações, as mães de bebês com microcefalia vêm se unido em redes de solidariedade para se proteger, informar e amenizar as consequências da epidemia A mobilização começou por aquelas que foram afetadas diretamente pelo vírus: as mães. Juntas nos corredores de hospitais, elas compartilham suas vivências e se unem para garantir seus direitos.

No Hospital Municipal Dom Pedro I, em Campina Grande (PB), salas antes ocupadas para fins médicos, agora estão cheias de doações de fraldas, latas de leite, roupas e calçados infantis. “O que a gente tem feito aqui desde o começo foi encampar essa dor e essa angústia dessas mãe”, conta Adriana Melo, especialista medicina fetal. A roda de psicologia é um dos momentos mais aguardados pelas mães que frequentam a unidade. Depois das sessões de fisioterapia dos filhos, elas conversam sobre seus anseios e são conduzidas por uma psicóloga a pensar nas mudanças de suas vidas.

“Todo aprendizado humano ocorre num processo coletivo. Seja troca de conhecimento, seja de afeto. O grupo tem um potencial enorme de transformação. A gente aposta nessa técnica para que elas possam realmente perceber que não estão sozinhas nessa luta”, explica a psicóloga Jaqueline Ramos Marinho.

Um dos focos do trabalho é ressignificar a maternidade para essas mulheres, que em grande parte descobriu a microcefalia no pós-parto. “Elas precisaram fazer toda uma desconstrução de uma maternidade idealizada para substituir por uma maternidade real. É um trabalho árduo. Não mais olhar o filho como uma criança que possui uma deficiência, mas como uma criança que tem também potencial de transformação”, comenta a psicóloga.

Transformar a dificuldade em algo produtivo foi o que fez Jéssica de Jesus, mãe de Ícaro, um dos bebês atendido no Centro de Reabilitação da Irmã Dulce, em Salvador (BA). Antes de ser mãe, ela já desenvolvia um trabalho social realizado junto ao bloco de carnaval “Comanches do Pelô”, com foco em ajudar crianças com algum tipo de deficiência. Jéssica e o marido perderam o emprego, mas ficou a experiência de mobilização. A partir da própria vivência das mães ao seu redor, começou a mobilizar os blocos de carnaval de Salvador para arrecadar fraldas e leite nos shows. “O nosso foco principal são as mães que fazem tratamento de fisioterapia com seus filhos aqui. Então, é muito importante que o pouco que a gente tenha, a gente possa doar”, diz. Jéssica ainda tem apoiado as mães para que elas procurem, junto à prefeitura ou mesmo no SUS, o atendimento adequado.

“O sonho que eu tenho agora é de ver a felicidade das mães, independente da situação que está acontecendo”, revela Jéssica.

Em Recife, estado mais afetado pela epidemia, as mulheres foram acolhidas pela Associação de Mães e Famílias Raras, a Amar. “A Amar surgiu de uma necessidade de cuidar da mãe. Essa mãe vinha na minha fanpage no Facebook buscando ajuda, dizer que era muito sozinha, que não estava suportando mais aquela pressão e a solidão”, lembra  a presidente da associação, Pollyanna Dias.

A associação foi procurada por um número muito grande de mães que não têm condição financeira para cuidar das crianças com microcefalia. Por isso, promove eventos de arrecadação de donativos para garantir alimentação, fraldas e transporte, entre outras necessidades.

“Uma coisa que diferencia a zika das outras síndromes raras é que, nas outras síndromes, as mães são de todas as classes sociais. Na Síndrome Congênita do Zika, a maioria é de extrema pobreza. Então, a dificuldade inicial foi socorrê-las com essa parte financeira”, explica Pollyanna.

Em Salvador, três gerações de uma mesma família atuam juntas na mobilização da comunidade do Calafate, situada no Bairro Fazenda Grande do Retiro. Aos 82 anos, Magdalena Tavares Leiro lidera um projeto de conscientização dos vizinhos sobre o lixo jogado na rua, principalmente depois da epidemia do Zika. A inspiração para o trabalho é de família. Na sala de sua casa, Magdalena exibe as fotos antigas de mulheres que lutaram por melhorias na comunidade.

Ela repassou a herança de ativismo adiante. Sua filha, Marta Leiro, é um das fundadoras do Coletivo de Mulheres do Calafate, que surgiu em 1992 para combater a violência de gênero. Hoje, o coletivo se dedica à prevenção da epidemia do vírus Zika, que mudou a rotina das mulheres da comunidade. “Em maio de 2015, a gente via muitas queixas das mulheres sobre os sintomas da zika, que resultavam em momentos mesmo de ficar de cama. Só que a zika chega em um contexto de muitas violações de nossos direitos, ela vem complementar muitas coisas que nós já sentimos em uma comunidade popular.” Marta reclama ainda que a epidemia evidenciou a precariedade do direito à saúde. “A gente se depara com mulheres indo à procura dos postos por conta dos sintomas, das dores nas articulações, da febre. E nesse período, a gente não recebia o diagnóstico de zika, a gente chegava no posto de saúde, davam um dipirona e uma injeção e diziam ficar em repouso, que era uma virose.”, diz.

Azânia Leiro, 24 anos, filha de Marta e neta de Magdalena, também está à frente da mobilização das jovens do Calafate.

“É lógico que a gente sabe que tem um acompanhamento para o bebê, mas e para essa mulher?  A pessoa não fica mais sendo vista como a mulher, fica como a mãe do menino que nasceu com microcefalia e a gente não pode dizer isso. Ela continua sendo mulher independente da criança”, destaca Azânia.

A iniciativa dessas mulheres recebe o apoio da Organização das Nações Unidas, que tem promovido ações de publicidade, mobilização e empoderamento de jovens e mulheres em contextos vulneráveis à epidemia. “Para o Fundo de População da ONU, uma resposta que seja efetiva e que tenha as mulheres, as jovens no centro, prescinde de mobilização comunitária e de participação social. Não existe transformação que possa ser mantida se você não investir nas pessoas”, afirma Fernanda Lopes, representante do fundo.

Um ano depois da emergência da epidemia e depois de quatro meses de mobilização da comunidade, Marta comemora o resultado do projeto. “Nós conseguimos pautar na comunidade a relação do Zika com o direito das mulheres, principalmente o direito à informação. Hoje, elas estão exigindo mais informações dos profissionais de saúde e se sentem mais empoderadas”, relata Marta

10 de Novembro, 2016

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