Um ano de Zika: Mulheres à sombra

Mesmo um ano depois, ainda restam dúvidas de como o vírus afeta o sistema nervoso central do feto, causando a Síndrome Congênita do Zika. Os pesquisadores correm atrás do desconhecido, entretanto, a epidemia coloca em evidência uma realidade bem conhecida de desigualdade e discriminação.

“Por trás da epidemia, há mais que um mosquito e um vírus. Tem um sujeito oculto que precisa ser lembrado, ser trazido para o centro da narrativa: a mulher jovem negra em idade fértil”, afirma a médica Jurema Werneck, integrante da ONG Criola.

A declaração revela a preocupação em torno da situação da mulher, em especial a negra. Especialistas são unânimes em afirmar que a epidemia revela uma série de violações de direitos, a começar pela invisibilidade. Os números oficiais divulgados pelas secretarias municipais e estaduais de saúde referem-se somente aos bebês que nasceram com alteração neurológica.

A assessoria do Ministério da Saúde informou que o órgão ainda não tem informações socioeconômicas e raciais das mulheres afetadas pela epidemia. Mas, esse perfil é facilmente percebido quando se observa mais atentamente os espaços onde elas circulam com seus filhos. A maioria delas é usuária dos serviços do Sistema Único de Saúde, mora na periferia de grandes cidades, é negra e jovem.

Em Pernambuco, estado mais afetado, dados da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social corroboram a impressão inicial. Até outubro de 2016, dos 392 casos confirmados de bebês com microcefalia no estado, 223 são filhos de famílias vinculadas ao Cadastro Único de benefícios sociais. Ou seja, 57,3% deles são filhos de famílias que ganham até R$ 85 por mês e recebem o Bolsa Família. Cerca de 70% das mães dessas crianças são jovens de 14 a 29 anos, 77% são negras e 89% estariam aptas a receber o Benefício de Prestação Continuada (BPC), concedido pelo INSS a idosos ou pessoas portadoras de alguma deficiência e que ganham menos de um quarto do salário-mínimo por mês, o que equivalente a R$ 220.

A representante da ONU Mulheres no Brasil, Nadine Gasman, reforça a importância da efetivação das políticas nacionais de sáude da mulher para enfrentar o racismo e sexismo institucional. “Nós temos que reconhecer que a epidemia está atingindo a população mais pobre e um grande número de mulheres negras. O Brasil tem políticas públicas de saúde, de igualdade racial e políticas públicas das mulheres. Este é o momento para que essas políticas sejam realidade para saber como atingir essas populações e garantir que desde as pesquisas até os tratamentos, a reabilitação, os serviços sejam pensados e desenvolvidos com uma perspectiva de gênero e raça.”

A resposta brasileira à epidemia do zika é elogiada por muitos especialistas e instituições de saúde. Mas, no que diz respeito a assistência às mulheres, pesquisadores e ativistas consideram que o Estado deixou a desejar. “Diante de uma epidemia a gente vê que uma preocupação inicial foi com o feto, com a saúde das crianças, e é justo que se tenha essa preocupação. Mas é importante que haja um equilíbrio na atenção a mulher, do que impactou na vida delas, de quantas desejaram, planejaram essa gravidez e se depararam com um filho que vai trazer uma série de consequências para sua vida”, afirma a secretária da Mulher do estado da Paraíba, Gilberta Soares.

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